Memorial Vale da Saudade

Poesia e Morte: o que nos ensina Manuel Bandeira?

Neste episódio voltamos para a poesia. Desta vez, para destacar a obra do grande poeta pernambucano Manuel Bandeira. Vivemos em uma sociedade que consagrou o tabu da morte como regulador da nossa relação com ela. Significa dizer que não nos sentimos a vontade de refletir sobre a morte em seu sentido existencial e pessoal. Mas, como todo tabu, existem formas para que possamos de alguma forma questionarmos e superarmos sua força.Vamos falar a respeito do poema “O Homem e a Morte” composto por Manuel Bandeira. Nele veremos que a morte pode ser pensada de outras formas do que estamos acostumados.

Introdução

Como já foi destacado em outras oportunidades, espaços para que a gente possa aprender a morrer se tornaram muito restritos daí que autores como Maria Júlia Kovács proponham uma educação para a morte. A busca de uma pedagogia de fato que nos ensine a morrer. Entretanto, essa discussão está muito longe das escolas nos currículos formais que preparam crianças e adultos. De outro lado, a mesma situação acontece em nossas casas onde esse assunto é sistematicamente vetado pelos nossos familiares.

Reduto artístico

Nesse sentido cumpriria aos poetas serem a matriz de tradições filosóficas muito importantes que eram discutidas aí no passado, tanto na idade média quanto no período da antiguidade. Dessa forma talvez a poesia seja um dos últimos redutos artísticos com significativa produção cultural sobre a morte e o morrer produzindo assim, sentidos que podemos nos apropriar para oferecer sentido às nossas próprias vidas.

Nos últimos anos podemos dizer que se consolidaram as representações da morte em seu sentido mais negativo. Assim estamos no reino dos esqueletos e das aberrações monstruosas, de figurações com corpos em adiantado estado de putrefação nos perseguindo como zumbis, como acontece em alguns seriados como The Walking Dead.

Alternativa poética

Creio que isso além de exprimir uma certa percepção coletiva sobre a morte, acaba meio que retroalimentando o que nós pensamos a respeito dela. Haveria alternativa a essas imagens estão feias? Vejamos a seguir um belo poema de Manoel Bandeira. Sim, hoje retomamos a poesia como um espaço por excelência para nos preparar sobre a morte. Então vamos ouvir o que o Manuel Bandeira tem a nos dizer no seu poema:

O HOMEM E A MORTE

O homem já estava deitado
Dentro da noite sem cor.
Ia adormecendo, e nisto
À porta um golpe soou.
Não era pancada forte.
Contudo, ele se assustou,
Pois nela uma qualquer coisa
De pressago adivinhou.
Levantou-se e junto à porta
— Quem bate? ele perguntou.
— Sou eu, alguém lhe responde.
— Eu quem? torna. — A Morte sou.
Um vulto que bem sabia
Pela mente lhe passou:
Esqueleto armado de foice
Que a mãe lhe um dia levou.
Guardou-se de abrir a porta,
Antes ao leito voltou,
E nele os membros gelados
Cobriu, hirto de pavor.
Mas a porta, manso, manso,
Se foi abrindo e deixou
Ver — uma mulher ou anjo?
Figura toda banhada
De suave luz interior.
A luz de quem nesta vida
Tudo viu, tudo perdoou.
Olhar inefável como
De quem ao peito o criou
Sorriso igual ao da amada
Que amara com mais amor.
— Tu és a Morte? pergunta.
E o Anjo torna: — À Morte sou!
Venho trazer-te descanso
Do viver que te humilhou.
— Imaginava-te feia,
Pensava em ti com terror…
És mesmo a Morte? ele insiste.
— Sim, torna o Anjo, a Morte sou,
Mestra que jamais engana,
A tua amiga melhor.
E o Anjo foi-se aproximando,
A fronte do homem tocou,
Com infinita doçura
As magras mãos lhe compôs.
Depois com o maior carinho
Os dois olhos lhe cerrou…
Era o carinho inefável
De quem ao peito o criou.
Era a doçura da amada
Que amara com mais amor.

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Refúgio vs Medo

Bom, quando nós olhamos o poema, podemos notar que ele parece subdividir-se em duas partes. Com relação a primeira, estamos mais acostumados. A primeira parte do poema fala do pavor provocado pela ideia de morrer e do quanto podemos buscar mecanismos, sejam reais ou imaginários, para fugir o máximo possível da morte e de todas as ideias que são despertadas a respeito dela. Ele não quer abrir a porta ao terrível esqueleto, pelo contrário, refugia-se ao leito como um símbolo que nega a morte e ao mesmo tempo parece trazer refúgio e conforto. No entanto quer queiramos ou não a morte sempre está presente em nossas vidas.

Então o protagonista do poema é surpreendido ao perceber que a morte não era tão terrível assim. E lá está ela agora representada por uma doce mulher, um anjo quase a imagem de uma bela mãe a trazer conforto, carinho e paz frente a uma vida de dissabores. Bandeira parece resumir com propriedade os extremos dos sentimentos com relação a morte e retoma parte da tradição romântica e simbolista ao apresentá-la como uma mulher.

No entanto não existe um acordo. Na verdade a morte parece ser as duas coisas ao mesmo tempo, algo que traz medo pela ideia de dissolução que ela provoca, pelo convite ao desconhecido, mas também algo não conhecemos a nos furtar de encontrar um dia. Não, não poderemos nos esconder. Não seria melhor então investir nessa segunda imagem? pensarmos um anjo que proporciona refúgio mesmo que em certa medida ainda sejamos tomados por um certo medo.

Lição do poeta

Que fique então a lição do grande poeta Manoel Bandeira: A morte pode entrar em nossas vidas a qualquer momento pois lá está ela sorrateira batendo à porta. Quando isso acontecer não haverá escapatória. A intensidade de sofrimento e dor nesse instante dependerá então de qual imagem cultivamos pela vida. Penso, repenso e não consigo encontrar quase nada que seja mais reconfortante que o abraço da mulher amada. Até o próximo episódio do nosso podcast Tanatos Cast. Tudo de bom e uma boa semana pra você.

Objetivando o acesso a todos que não podem escutar nosso podcast, extraímos o texto para melhor aproveitamento daqueles que preferem a leitura. Caso se interesse por escutar o podcast ThanatosCast, você encontrará nas plataformas Spotfy e Google Podcasts

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